
Em minhas leituras do trabalho do Prof. Humberto Maturana, encontrei estes trechos que creio são algumas das idéias mais interessantes para trabalhar nesta pesquisa sobre emoções e sensibilidade, especialmente no que diz respeito a primeira fase do projeto.
Passo a transcrever:
“Emoções são tipos de comportamentos relacionais e como tal, guiam momento após momento nossas ações, especificando o domínio relacional em que operamos, a todo instante, e dão ao nosso agir o seu carácter de ações”
“…hoje sabemos que cada domínio racional se baseia em premissas básicas aceitas a priori, isto é em bases emocionais, então são as nossas emoções o que determina o domínio racional em que operamos como seres racionais a qualquer instante.”
“Do mesmo modo, usamos diferentes tecnologias em diferentes domínios de coerência operacional de acordo com aquilo que queremos obter com as nossas ações, isto é, utilizamos diferentes tecnologias de acordo com nossas preferências e desejos. Assim, as nossas emoções são o que orienta a nossa vida tecnológica e não a própria tecnologia, ainda que falemos como se a tecnologia determinasse nosso agir independentemente dos nossos desejos.”
“…se formos cuidadosos, podemos verificar que os diferentes processos tecnológicos que foram usados pelos nossos antepassados durante milhares de anos estavam relacionados com as alterações ocorridas nos seus desejos, gostos ou preferências estéticas, independentemente de como seu modo de vida foi afetado depois. “
“… como não entendemos o fundamento emocional das nossas ações, ficamos presos na convicção de que o viver humano é racional e, portanto, deve ser vivido através da razão, bem como na convicção de que emoções podem destruir a racionalidade e são uma fonte de arbitrariedade e desordem na vida humana. Assim, a longo prazo, não conseguimos entender a nossa existência cultural.”
Então penso que:
1. Está certo pensar que o computador pessoal é modelado pelo nosso agir, que se assenta em bases emocionais, com desejos e preferências determinadas a priori. Mais ainda que os traços deixados no computador representam de alguma forma um fluir entre domínios relacionais que podem representar a sensibilidade de quem utiliza a máquina.
2. Esse fluir pode estar representado pelos arquivos gravados na máquina mas também pelo modo de usar a máquina, ou seja, pela maneira de organizar, pelos tipos de programas que são utilizados, pela sequência temporal etc…
3. Ao recuperarmos um arquivo na máquina de nosso hospedeiro estaremos buscando uma emoção original, ou melhor a recuperação de uma configuração das emoções que dá sentido a aquele arquivo como objeto representativo da sensibilidade do hospedeiro. Será como se buscassemos retroceder a um ponto na história pessoal do hospedeiro e relatar o encontrado.
4. Neste momento estaremos em contato com a configuração emocional dele no instante em que isso acontece, portanto, agora. Essa configuração será sempre dominante em relação a uma configuração do passado vivido, ou seja, estaremos sempre recolhendo informações sobre o que esta sendo vivido em tempo real e não sobre o passado.
5. Para acessar este passado talvez seja preciso criar um espaço metafórico, e transportar o hospedeiro para um campo onde ele possa superar as emoções do instante e reviver/viver outras emoções. Será preciso trabalhar com a plasticidade do hospedeiro. Esse é uma das possibilidades poéticas desta fase do trabalho.
6. Essa plasticidade pode nos dar uma das variáveis necessárias para determinar uma “sensibilidade”, um campo sensível para o hospedeiro.
O texto original do Prof. Maturana esta em inglês no link:
Metadesign:
Human beings versus machines, or machines as instruments of human design?